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pH em questão

24/03 - Rio 450 anos

 
 
 
 
Esta crônica fala, nos 450 anos do Rio de Janeiro, de uma tradição da cidade que praticamente deixou de existir: a dos cinemas de rua. Mais do que centros de lazer e difusão de cultura, os cinemas eram verdadeiros testemunhos da história da arquitetura urbana da cidade. 
 
CINEMA DE RUA
Luiz Antonio Simas
 
Quem quiser conhecer uma pequena história de devastação urbana pode se aventurar a fazer uma lista dos cinemas de rua das Zonas Norte e Oeste do Rio de Janeiro que não existem mais. Dezenas de cinemas da região viraram edifícios comerciais, farmácias ou templos religiosos.
 
A lista é enorme e cito só alguns: Bandeirantes, Brasília, Ridan, Abolição (Abolição); Rosário e Mauá (Ramos); Ideal, Jovial, Bruni Piedade, Padre Nóbrega (Piedade); Caiçara (Bento Ribeiro); Paraíso (Bonsucesso); Hermida (Bangu); Brás de Pina (Brás de Pina); Palácio Campo Grande (Campo Grande); Monte Castelo (Cascadura); Real e Santa Alice (Engenho Novo); Irajá e Lamar (Irajá); Alfa, Coliseu, Beija-Flor e Madureira (Madureira); Bruni, Eskye, Paratodos (Méier); Baronesa (Praça Seca); Guaracy (Rocha Miranda); Roulien, Cine Todos os Santos (Todos os Santos); Vista Alegre (Vista Alegre); Realengo (Realengo); Lux (Marechal Hermes); Cisne (Freguesia); Santa Alice (Engenho Novo); Tijuquinha, América, Carioca, Bruni, Olinda, Metro, Art-Palácio, Britânia, Eskye Tijuca (Tijuca).
 
O fenômeno da morte dos cinemas de rua não é caso isolado. Daqui deste meu coreto dano de botar a boca no trombone e falar das barbearias, quitandas, açougues, botequins, livrarias, pequenos comércios e clubes de bairro – importantes elementos de sociabilidade da cidade – que agonizam diante da profusão de butiques de carnes, livrarias megastores, hortifrutis assépticos, botecos de grife e similares.
 
Lembro-me do meu avô me contando da impressão que teve, quando chegou do Recife para morar no Rio, ao entrar no Cine Guaracy, na Rua dos Topázios, em Rocha Miranda.  
 
Projetado por Alcides Torres da Rocha Miranda, membro da família em cujas terras o bairro surgiu, o cinema foi inaugurado em 1954 com todas as pompas. Na época da inauguração o Guaracy foi um estouro: escadas em mármore carrara com corrimão de bronze, colunas gregas, sala de espera espelhada e mais de 1300 lugares.
 
E aí me bate uma tristeza tamanha com o desencantamento da cidade: meu filho terá que se contentar com a neutralidade higiênica das salas de shoppings e suas arquiteturas uniformes. Ele apenas me ouvirá contar, como se fosse um conto da carochinha, do deslumbramento do meu avô.
 

 
Nos 450 anos do Rio de Janeiro, vale refletir sobre uma característica da cidade que nos últimos tempos apresentou vigorosa transformação. O pequeno comércio de rua, antes característico do espaço urbano carioca, perdeu a força e a própria maneira de se encarar os logradouros públicos se alterou rapidamente. O texto abaixo, originalmente publicado no jornal O Dia, aborda este tema e sugere uma reflexão sobre a maneira como podemos pensar o Rio. Boa leitura!
 
O RIO É RUA
Luiz Antonio Simas
 

Não há carioca que não perceba o fato desalentador: o pequeno comércio de rua, característico do Rio de Janeiro em boa parte de nossa história, virou uma espécie de ararinha azul, em vias de extinção. Barbearias, açougues, livrarias, quitandas, botequins, floristas, lojas de macumba, aviários, marcenarias, etc., estão indo para o beleléu.

A tendência é que esse comércio pequeno e mais afetivo seja engolido pelo gigantismo dos hortifrutis, salões de shopping, megastores, franquias de bares de grife, butique de carnes e similares. Sei de um amigo que foi tomar umas biritas em um botequim que costumava frequentar e encontrou no lugar, vejam só, um ateliê culinário de residência gastronômica.

Não entendo patavina de economia, gestão de negócios ou coisa que o valha. Não vou, por isso, entrar no mérito da inadequação desses lugares a uma cidade tratada como empresa. Outro dia assisti à entrevista de um empreendedor sobre os novos tempos. Disse ele que para sobreviver o comerciante tem que ter criatividade, dinamismo, capacidade de dialogar com as demandas do mercado e velocidade para agir.

Minha pegada é outra. Cresci aprendendo que as coisas têm fundamento e um lugar não é apenas a matéria bruta de seus alicerces.  Uma cidade é feita das memórias, aspirações, sonhos, desilusões, conquistas, fracassos, alegrias e invenções da vida de inúmeras gerações que cruzaram suas ruas. Um lugar tradicional é, portanto, também o resultado das experiências intangíveis, matéria da memória acumulada pelos que ali experimentaram modos de vida e instâncias de sociabilidade.

Boa parte da vitalidade da cultura do Rio de Janeiro veio da rua. Entre pernadas, batuques, improvisos, corpos dançando na síncopa, gols marcados na várzea, gudes carambolando e pipas cortando os céus, a tessitura da cidade foi se desenhando nas artes de inventar na escassez.

 Foi assim que o carioca zuelou tambor, jogou capoeira, fez a sua fé no bicho, botou o bloco na avenida, a cadeira na calçada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel na cachoeira. O pequeno comércio, o mercado de rua, jogava nesse time de sociabilidades mundanas.  

No fim das contas, é urgente que a cidade recupere o sentido da rua como um espaço de convivência e desaceleração do cotidiano. Uma rua que permita, no resíduo de seus acontecimentos miúdos, maneiras de viver que não sejam simplesmente receptivas ou reativas aos desígnios do deus carro; mas que propicie o encontro entre as gentes da Guanabara.

 

 
A CIDADE GIRA
Luiz Antonio Simas
 
Sou um carioca cismado com uma ideia: a cidade do Rio pode ser pensada como um terreiro de encantaria encravado entre a montanha e o mar. Baixam por aqui as falanges ameríndias, europeias e africanas e se bobear dança todo mundo na mesma gira. De vez em quando, eu diria até que muito frequentemente, os encantados de falanges diferentes saem no cacete e a curimba esquenta. Eventualmente, porém, as entidades se abraçam - e é aí que a roda ritual bordada pelos tambores fica mais bonita. 
 
Os mais velhos contam que encantados não tiveram morte física. Transmutaram-se em pedras de rio, areias e conchas de praias, ondas do mar e cumes de montanhas. Imagino, portanto, Estácio de Sá encantado no Pão de Açúcar, mil tupinambás encantados nas praias da Guanabara e um Zé Pilintra ajuremado numa esquina perto do São Carlos. 
 
Pereira Passos está encantado numa águia do Theatro Municipal. Cartola ajuremou numa pedrinha miúda da subida do Pendura Saia, Noel encantou-se nas calçadas do Boulevard e Jamelão virou jequitibá do samba. Aracy de Almeida encantou-se no Encantado mesmo. Estão todos por aí, prontos para baixar, dançar, dar conselhos, passes e o escambau. Registre-se que o terreiro também é cheio de encosto de capitão do mato que quer atrapalhar a firmeza do riscado da pemba. O Maracanã perdeu o axé do fundamento. 
 
Para entender a gira no Rio de Janeiro, acho ainda que é necessário compreender e vivenciar as funções das festas. Esclareço melhor: vejo as festas da cidade como um conjunto de ritos onde relações tensas e intensas entre as diferentes camadas sociais disputam espaços e inventam formas de vida. A cidade é território de afeições e ódios, entre batuques, beijos, furtos, comidas e cantos. Morte e vida cariocas; cidade de flor e faca. 
 
Entrudos, corsos, batalhas de confetes, Festa da Penha, rodas de capoeira, blocos de arenga, rodas de pernada, ranchos, cordões, grandes sociedades, escolas de samba, onças do Catumbi e caciques de Ramos, bailes e gols, dão pistas para se entender como as tensões sociais — disfarçadas ou exacerbadas — bordam as histórias da cidade-terreiro; ou das cidades que formam o grande terreiro. A festa foi espaço de subversão da cidadania roubada. Inventou-se na rua a cidade negada nos gabinetes.
 
Disciplinar a rua, ordenar o bloco e enquadrar a festa, por sua vez, foi a estratégia do poder instituído na maior parte do tempo. Fruto do embate entre a tensão criadora e as intenções castradoras — e o jogo está longe de terminar — a gira carioca dos encantados continua firme.
 

 
A CIDADE SEQUESTRADA
Luiz Antonio Simas
 
Uma das histórias mais famosas dos 450 anos do Rio de Janeiro refere-se aos piratas e corsários franceses que vagavam pelas águas da Guanabara durante o período colonial; uma gente perigosíssima e disposta a tudo em troca de riquezas.
 
Imagem do século XVIII que retrata a entrada da esquadra francesa no Rio de Janeiro.
 
Muitos cariocas não sabem, todavia, que a cidade do Rio de Janeiro foi sequestrada pelos corsários franceses em 1711. Sim, eu me refiro ao sequestro da cidade inteira. Conto como foi.
 
Em 1710, sob as ordens do rei Luís XIV, o terrível lobo do mar Jean-François Duclerc desembarcou em Guaratiba e, comandando mil e poucos homens, percorreu a zona rural e atacou a cidade pela retaguarda. A ideia do corsário era promover, no mínimo, uma pilhagem monumental e assumir o controle do porto.
 
O francês não contava com a resistência da população, liderada por estudantes, pretos forros, vagabundos de escol, crianças, barbeiros, mercadores e voluntários de todos os tipos. A Guanabara assistiu a violentos combates de rua, com tiroteios, facadas, socos, pernadas, dentadas e similares. Após alguns dias, os franceses se renderam. O saldo final apontou mais de 300 mortos e dezenas de presos, dentre eles o próprio Duclerc.
 
O corsário, aliás, teve um final terrível. Foi assassinado no cativeiro por dois sujeitos embuçados, provavelmente a mando do governador Francisco de Castro Morais. 
 
Seis meses após a morte de Duclerc, e com a justificativa de vingar o colega de rapina, outro francês atacou o Rio de Janeiro. No dia 20 de setembro de 1711, à frente de uma frota com 18 navios, 740 peças de artilharia e quase seis mil homens, o corsário René Duguay-Trouin tomou a cidade, anunciou o sequestro de toda a população e exigiu um resgate de 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois para não destruir completamente o Rio.
 
O governador simplesmente fugiu, acompanhado pelas principais autoridades municipais. Coube ao povo carioca se virar para resolver a escaramuça. Após uma vaquinha épica, cada um doando o que tinha para completar o butim, o francês recebeu o resgate e voltou para a Europa. Parece que a noite anterior à partida foi um negócio sério. A francesada encheu o pote nas tabernas mais suspeitas da Guanabara e teve até pirata que se enamorou por aqui e resolveu ficar.
 
O governador covarde, evidentemente, foi demitido pelo governo português e ridicularizado pela cidade inteira. Recebeu o apelido de Chico Vaca e teve que escafeder-se do Rio para não apanhar dos cariocas. A população percebeu que não podia contar mesmo com os governantes - os primeiros que sumiram quando o negócio encrencou - e a vida acabou retomando seu curso.
 

 
ANIVERSÁRIO DO RIO DE JANEIRO
Luiz Antonio Simas
 
A cidade do Rio de Janeiro, fundada em 1565 por Estácio de Sá, comemora 450 anos em 2015.  Os eventos sobre o fato histórico se estenderão até o final do ano. Palestras, lançamentos de livros, concursos literários, shows musicais, exposições e peças de teatro, serão algumas das atrações que, até dezembro, marcarão a festa da cidade.
 
"Fundação da Cidade do Rio de Janeiro", obra de Antônio Firmino Monteiro.
 
A história da fundação do Rio está longe de ser um mar de rosas; já que os portugueses passaram um sufoco grande para conquistar essas terras banhadas pela Baía da Guanabara. Primeiro foram os franceses, que tentaram fundar por aqui a colônia da França Antártica. Depois de muita guerra, a turma de Villegagnon foi expulsa pelos homens do Governador-Geral Mem de Sá.
 
Resolvida a questão? Nem pensar. Além do desafio francês, os portugueses tiveram que enfrentar a resistência dos índios tupinambás, senhores da Guanabara. Foi para combater a Confederação dos Tamoios (expressão que significa "os mais velhos"), um episódio importante e pouco mencionado da nossa História, que Estácio de Sá, sobrinho do Governador-Geral, estabeleceu um arraial no sopé do Pão de Açúcar, no dia 1 de março de 1565. É esse o episódio que marca a fundação do núcleo original da cidade.
 
De lá para cá o Rio passou por momentos de grande intensidade: a elevação à capital da colônia (1763); os impactos da chegada da família real portuguesa (1808); a marcante presença de negros escravizados, episódio trágico da História do Brasil que, todavia, tem repercussões fundamentais na História e na cultura da cidade; a Era Mauá; a proclamação da República; as reformas urbanas; os dilemas após a transferência da capital para Brasília; etc. 
 
Não vamos ficar acompanhando de fora as comemorações e reflexões sobre o aniversário do Rio. Textos, vídeos, sugestões de leituras, imagens e curiosidades, estarão semanalmente expostas no “pH em questão”, sessão do nosso site. Em breve anunciaremos também as maneiras como as alunas e alunos poderão participar desse processo, com elaboração de vídeos, textos, poemas, envio de fotos, sugestões de passeios e outros aspectos relacionados à cidade de São Sebastião. 
 
A festa, afinal, é de todos os cariocas. É tempo de comemorar e refletir.
 
 

 




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